Crônicas

Fragilidades Humanas

Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos.

A preguiça vira “cansaço acumulado”. A teimosia atende por “firmeza de convicções”. O excesso de compras costuma ser tratado como “aproveitar uma oportunidade imperdível”. E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava “bem-informado”.

Talvez essa seja uma das fragilidades humanas mais universais: a habilidade de encontrar explicações generosas para comportamentos que, vistos de fora, pareceriam apenas escorregões bem comuns.

Foi pensando nisso que me deparei com um documento capaz de elevar essa arte a outro patamar. Em um site especializado encontrei o testamento de um Monsenhor, datado de 1863. Depois das fórmulas de praxe — estar em perfeito juízo, temer a morte em hora incerta, professar a fé católica e desejar nela viver e morrer — surge a seguinte declaração:

“Declaro que, por fragilidade humana, tenho sete filhos (7) já reconhecidos e legitimados por carta imperial.”

Sete.

Não um deslize momentâneo. Não um episódio isolado. Sete filhos devidamente reconhecidos, legitimados e registrados para a posteridade.

O mais curioso não é sequer a existência da numerosa descendência, mas a explicação escolhida. Enquanto alguns de nós classificamos como fragilidade humana devorar a última coxinha da festa ou comprar um sapato desnecessário em liquidação, o Monsenhor trabalhou em outra escala.

E o melhor vem depois: ele passa a relacionar os herdeiros um por um, como quem apresenta com legítimo orgulho os resultados de sua fragilidade.

Confesso que achei difícil não admirar a sinceridade do homem. Afinal, se era para assumir a fraqueza, assumiu com método, persistência e excelente produtividade.

Talvez por isso eu tenha lembrado de um trecho bíblico que parece combinar perfeitamente com a situação: “Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza.”

Nesse quesito, convenhamos, o Monsenhor tinha material de sobra.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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